Samba de Bumbo Campineiro

From Nos Caminhos de São Paulo

O SAMBA DE BUMBO é uma dança típica do estado de São Paulo, com grande expressividade em Campinas, Bom Jesus de Pirapora, Santana do Parnaíba e Tietê. Conhecido também como SAMBA DE RODA OU SAMBA CAMPINEIRO, ele surgiu nas áreas rurais na metade do séc. XIX, pelos afro-descendentes do oeste paulista, e aos poucos migrou para as áreas urbanas das cidades. O Samba de Bumbo recebe vários nomes de acordo com a época e a localidade. É também conhecido como Samba Antigo, Samba Grosso e Samba de Pirapora. Ao lado do Samba Lenço, do Jongo de Guará e dos Batuques de Umbigada de Tietê, o Samba de Bumbo compõe a quadrologia das manifestações culturais negras originadas no tempo da escravidão, formando as raízes dos Sambas Rurais Paulista. A manifestação esteve praticamente esquecida durante a segunda metade do séc. XX e devido à crescente urbanização da região e as influências dos meios de comunicação. O Urucungos, com o compromisso de recuperar as raízes negras da cidade de Campinas, inicia sua pesquisa com o Samba de Bumbo junto com a fundação do grupo. Isso se dá, principalmente, em função da participação de integrantes que vivenciaram o Samba dentro de suas famílias, sendo eles as fontes vivas do conhecimento. No processo de recuperação da memória do Samba, a música percussiva, os passos da dança e os pontos ou cantos foram aprendidos e recriados, resultando nas apresentações artísticas divulgadas pelo grupo. Através de uma parceria entre o Urucungos, a PUC-Campinas e a Casa de Cultura Tainã foram restaurados dois bumbos tradicionais desta manifestação da família Estevam e da família da Dona Aurora, dois dos mais atuantes representantes dos Sambas antigos em Campinas e Vinhedo.


Os elementos presentes nas performances destes grupos são invariavelmente dança, canto e percussão. Nos anos 1930, o escritor Mário de Andrade, nas suas andanças pelo país em busca de sua identidade cultural, registrou suas impressões sobre a música praticada em Pirapora do Bom Jesus. "O bumbo está bem atento. Quando percebe que a coisa pegou e o grupo, memorizando com facilidade o que lhe propôs o solista, responde unânime e com entusiasmo, dá uma batida forte e entra no ritmo em que estão cantando", registrou o escritor em seu texto "O Samba Rural Paulista", de 1937. O autor referia-se a um destes sambas rurais, mais especificamente ao Samba de Bumbo, cuja performance pressupõe a presença de elementos musicais, coreográficos, estéticos e cênicos, variáveis de uma comunidade para outra, mas com alguns aspectos em comum, descritos nos parágrafos abaixo.

Em relação à instrumentação musical, encontra-se comumente uma base de instrumentos formada por caixa e chocalho, podendo também ser enriquecida com o caxixi

Instrumento da família dos chocalhos, de origem africana. É um pequeno cesto de palha trançada, em forma de campânula, pode ter vários tamanhos e ser simples, duplo ou triplo; a abertura é fechada por uma rodela de cabaça, tem uma alça no vértice. Possui pedaços de acrílico, arroz ou sementes secas no interior para fazê-lo soar. É usado principalmente como complemento do berimbau A mão direita que segura a vareta entre o polegar e o indicador, segura também o Caxixi, com o médio e o anular, Desta maneira, cada pancada da vareta sibrew a corda é acompranhada pelo som seco e vegetal do Caxixi. Este instrumento é uma pequena cesta de bambu com sementes de Timquim no interior, e fechada na base com a casca de cabeça.. e o djambê

O instrumento é um tipo de tambor originário de Guiné na África ocidental. É muito antigo e até hoje é importante nas culturas africanas, sobretudo na região mandingue, que compreende os países Mali, Costa do Marfim, Burkina Faso, Senegal e Guiné.

O djembê é um instrumento musical de percussão (membranofone) que possui o corpo em forma de cálice e a pele tensionada na parte mais larga, que pode variar de 30 a 40 cm de diâmetro. O instrumento solista, observado por Mário de Andrade, é o bumbo, que pode ter cerca de um metro de diâmetro e cuja sonoridade se pode ouvir à distância. Ao contrário dos instrumentos da base, cuja rítmica segue um padrão sem variações durante a performance toda, o bumbo “dialoga” com os sambadores, podendo improvisar batidas, variar a intensidade do volume e, por vezes, acelerar ou desacelerar a bateria, única variação pela qual esta última pode passar, na verdade, mas nunca de maneira independente, sempre sob a orientação do bumbo.

O aspecto musical do Samba de Bumbo conta ainda com a cantoria dos pontos, breves cantigas cujos temas giram em torno dos tempos de escravidão, do trabalho na roça e do cotidiano dos antepassados. Há pontos específicos para fins diversos, como pontos de saudação, diversão e zombaria entre participantes e uma possível platéia, desafios entre sambadores, e ainda pontos de despedida, que encerram a atividade. Cada comunidade possui um repertório de pontos, mas nada impede que sejam improvisados numa performance.

A maneira como são cantados segue sempre a mesma dinâmica: cada ponto é cantado uma ou duas vezes por apenas um elemento do grupo, sem acompanhamento de nenhum instrumento. Uma vez apreendido pelos demais sambadores, o ponto passa ser cantado por ambos, proponente e demais sambadores, numa espécie de “jogo de pergunta e resposta” dos versos, que pode se repetir duas, três ou quatro vezes, neste momento com acompanhamento do instrumental. Um dos encerramentos possíveis do ponto é um grito de “salve o ponto” que pode ser dado pelo próprio proponente ou por qualquer outro sambador, fazendo –se ai a deixa para que outra pessoa proponha outro ponto.

Coreografia e dramatização são inseparáveis na performance do Samba de Bumbo, fazendo jus ao termo “danças dramáticas” cunhado por Mário de Andrade. No momento em que se inicia o “jogo de pergunta e resposta” dos versos dos pontos há também um vai e vem entre bumbo e um coeso grupo de sambadores: o bumbeiro avança contra o grupo, “empurrando-o” para trás, mas este logo responde, empurrando o bumbeiro de volta. Uma explicação freqüentemente, ouvida entre membros destas comunidades, é de que estes movimentos substituiriam a umbigada, proibida nas fazendas do interior paulista por sua sensualidade, passando o bumbo e o corpo de dançarinos a fazer as vezes de dois ventres se batendo. Os passos dos sambadores são sempre miúdos, arrastados; colados entre si e ao chão, lembram trabalhadores cansados, cujo peso das obrigações podem ser amenizados mediante a sua música, sua dança e sua união.

A estética dos figurinos prima por cores, lenços na cabeça e saias bem rodadas para as mulheres. Esta estética é, aliás, comum às duas modalidades de samba rural que este projeto se propõe a investigar. Na segunda modalidade, o Samba de Lenço, há também no figurino o tal lenço, que abanado constantemente pelos sambadores compõe a maior parte dos movimentos de braços da coreografia. O movimento dos pés também é pequeno, como no Samba de Bumbo, e se mantém por toda a execução, que já não é tão livre como a do samba de Bumbo. Remonta às danças de quadrilha, com posicionamentos e deslocamentos específicos para os dançarinos, geralmente orientados pela letra da música, que por sua vez é mais hermética a improvisos.

A instrumentação desta música é dada por pandeiro, chocalho, reco-reco, caia e zabumba, podendo ser acrescida de djambê, guaiá o Guaiá é um chocalho duplo, em forma de cones, feitos de folha-de-flandes e recheados com sementes ou pedaços de chumbo e caracaxá Também conhecido como reco-reco, regue-regue, o caracaxá é feito com um pedaço de bambu ou taquara com talhos transversais. A execução é feita passando, sobre os talhos, uma vareta de madeira ou de ferro.. Estes instrumentos seguem a mesma célula rítmica durante a execução. As canções dos sambas de lenço também remetem ao universo rural e à vida dos negros imersos neste universo e, em alguns grupos, louvam a São Benedito.